Todos os anos, a chegada da Quaresma nos coloca em atitude de recomeçar com Cristo. É certo que recomeçamos todos os dias, mas a celebração das Cinzas, os primeiros apelos da Liturgia à conversão, coincidem com o tempo da reorganização das atividades, das reuniões de planejamento, reinício da Catequese, retorno de alguns dias de justo descanso… estamos prontos para recomeçar aquilo que nunca para, a nossa vida pastoral, a nossa vida com Deus.

Cada ano é igual e também diferente. Igual porque o calendário tem as suas repetições, tanto na liturgia como na sociedade. Diferente porque a vida muda a todo instante, e este ano que passou foi tão diferente dos outros, que a retomada também o será. No ano passado não tivemos mutirão de confissões na Quaresma, nem Semana Santa presencial, tudo parou. Agora, retornamos à fase vermelha, mas, aprendemos a conviver com os necessários limites e, mesmo com uma situação ainda mais grave, com mutações do vírus, esperamos continuar com as celebrações, dentro dos parâmetros de segurança, evitando as celebrações de rua, porém, mais adestrados no uso das tecnologias de comunicação. A chegada das vacinas, mesmo sendo uma esperança concreta, desperta um sentimento de podermos baixar a guarda, relaxar os cuidados. Mas é o contrário: os cuidados devem continuar, e redobrados. Parece certo que, antes de melhorar, a situação vai piorar muito com o cansaço dos cuidados e com a rapidez do contágio das novas cepas de vírus, além da falta de profissionais e de leitos. Devemos estar atentos.
Vamos entrar no período da Quaresma fazendo o possível para criar uma estrada de reconciliação, de fraternidade, de pertença, de esperança, pois dias melhores estão para chegar.
Quaresma e Campanha da Fraternidade iniciam juntas, e a CF está sendo preparada pela equipe responsável: Pe. Ricardo Rodrigues, Pe.Thiago Jordão e Pe. Dênis Mendes, além de outros colaboradores. E teremos algumas novidades: A Campanha deste ano é Ecumênica. O texto foi preparado pelo CONIC e muito bem construído. É bem apropriado como reflexão e oportunidade de conversão quaresmal. Não teremos aquele sábado de Formação da CF na Catedral, como acontecem todos os anos: a formação será feita através da mídia diocesana, à noite, como uma “Semana da Fraternidade”. Em fevereiro, nos dias 8, 9 e 10 teremos palestras online. Dia 11 de fevereiro, dia de Nossa Senhora de Lourdes e Dia do Enfermo, cada qual celebra em sua paróquia, numa bela corrente de orações pelos enfermos de COVID19, pelos falecidos da pandemia e, pedindo a Maria que interceda junto ao Senhor, seu Filho, pelo fim desses sofrimentos. No dia 12, encerramos com uma Missa na Catedral, online, para todos os que participaram da Semana da Fraternidade. Peço que cada paróquia tenha a sua Equipe Paroquial da CF para acompanhar e divulgar a CF na mídia paroquial e por todos os meios disponíveis.
A abertura da Campanha da Fraternidade não será na sexta-feira, com a presença dos padres, como sempre foi. Será na Missa de Cinzas, quarta, às 19h30, na Catedral, com transmissão pela mídia da Diocese. Os padres divulguem essa data e façam também algum momento de abertura paroquial da Campanha. Lembro a todos que o rito para imposição das cinzas, neste ano, deverá ser diferente: estando todos de máscara e devidamente higienizados, o padre dirá uma só vez a fórmula (“Convertei-vos…” Ou “Lembra-te…”). Depois fará a imposição deixando cair as cinzas sem tocar na cabeça do fiel.

O tema da Campanha é Fraternidade e Diálogo, Compromisso de amor. O texto foi fechado em julho de 2020 e coincidentemente, em outubro, o Papa Francisco publicou a Encíclica Fratelli Tutti, cujo texto enriquece enormemente a proposta da Campanha. Nada melhor do que aproveitar a motivação da Quaresma para uma retomada esperançosa do Diálogo, da Fraternidade e da Caridade em nossas comunidades assoladas pelo isolamento e pela desesperança tão comuns nesse tempo. Uma atenção aos Sacramentos: A Catequese diocesana, prudentemente estabeleceu que não deverá haver catequese presencial antes da Páscoa. Até lá observaremos o movimento das escolas, e os riscos que podemos correr. Também as celebrações de Primeira Comunhão e Crisma dos jovens devem ser marcadas somente para depois da Páscoa.
Atenção igualmente quanto ao Sacramento da Penitência. Na quaresma, a procura é grande por esse sacramento, e é preciso ter muita precaução. O primeiro choque que tivemos no ano passado foi o cancelamento dos mutirões de confissões. Depois veio o período de isolamento total, de portas fechadas. No segundo semestre, mesmo abrindo progressivamente, ainda foi difícil atender a todos, dando oportunidade de Confissões, com a frequência devida. Penso ser importante fixar horários e ser rigoroso no distanciamento necessário para evitar riscos, mas atender o que for possível com segurança. Quem sabe os padres mais jovens possam se desdobrar, nas confissões, para não expor em demasia os que são mais vulneráveis, até que chegue a vacina tão esperada.
Muito recomendável nesse tempo é o exercício da Via Sacra. Porém, com as limitações impostas pela pandemia, penso ser mais viável incentivar a Via Sacra nas casas, acompanhando-as por Live. Nesse sentido, os livrinhos com os roteiros da Quaresma e Via Sacra em Família, adquiridos na Cúria, poderão ser usados pelos fiéis para acompanhar as transmissões. Uma Via Sacra, bem preparada, através da mídia Diocesana será uma boa opção para rezar com as famílias, com segurança.
A Semana Santa será realizada – assim esperamos – com os limites muito estreitos a que já estamos acostumados. Mas é uma ocasião em que costuma haver muita aglomeração, comparecendo até muita gente que normalmente não participa das celebrações. Penso que as celebrações deverão ser abreviadas e com todos os cuidados de inscrições e senhas. Bem preparadas nas Lives, com poucas pessoas no presbitério. Não será prudente fazer procissões e manifestações de rua. Mas não esquecer a Coleta da Campanha da Fraternidade (Domingo de Ramos) e a dos Lugares Santos, que será enviada à Terra Santa.

A Missa do Crisma e a Benção dos Santos Óleos – no ano passado adiamos, adiamos e, por fim, não a tivemos. Neste ano, a proposta é que a realizemos na Quinta-feira Santa, de manhã, às 9h, na Catedral, com a presença exclusiva do clero e seminaristas, com espaçamento e segurança, com transmissão pela mídia. Tenho esperança de que venham todos, sem exceção, para renovarmos as promessas sacerdotais e celebrarmos juntos o Dia da Instituição do Sacerdócio. À noite, todos poderão celebrar novamente, desta vez com o povo, a Missa da Ceia do Senhor.
O grande desafio da Sexta-feira Santa, se nossas Igrejas permanecerem abertas, será disciplinar a entrada para garantir distanciamento e segurança. O povo tem muitas paixões para chorar. Os mortos que não foram suficientemente velados, as despedidas apressadas e antecipadas, carregadas de medo e de dor. O emprego que não aconteceu e o salário que não veio, a fome e a violência doméstica exponencialmente crescidas. Tantas cruzes, tantas paixões! “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito!”
É Páscoa, é amor que renasce. Vai renascer se abrirmos espaço no coração do povo para nele se manifestar o Senhor. É Páscoa se nos comprometemos em retornar ao fogo do amor que sempre nos moveu. É Páscoa se cuidarmos uns dos outros e nos mantivermos unidos e acreditarmos que o Senhor nos prepara um banquete pascal de retorno do exílio, de promessa de vida, de vida em plenitude. Cremos nisso, de fato. Uma feliz e santa Páscoa a todos.
Dom João Bosco, ofm